Relatório Vindima Douro 2018
Fim do mais longo período de seca

Partimos do princípio que reverteríamos a um ano normal após o mais seco ciclo da vinha de sempre em 2017, mas estávamos enganados uma vez que a seca prolongar-se-ia até março de 2018. O Douro sofrera 20 meses consecutivos de chuva muito abaixo da média.

 

As nossas suplicas aos deuses do clima pareceram exageradas quando a seca de quase dois anos terminou abruptamente com a chegada de abundante precipitação em março, abril e maio. Estes meses extraordinariamente húmidos registaram chuva duas vezes acima da média e culminaram com uma forte tempestade na tarde de 28 de maio. Na zona do Pinhão, caíram 90 mm em menos de duas horas, com granizo localizado e devastador nalguns pontos. Nenhum solo consegue absorver tamanha quantidade de água, e muito menos as nossas vinhas escarpadas, onde a erosão provocou graves danos. Era espantoso ver oliveiras com os troncos arranhados em virtude das pedras arremessadas pela força das torrentes de água a precipitarem-se para o rio. Esta intempérie deixou marcas e suscitou olhares de desespero nos sábios caseiros durienses.

 

Chuvas abundantes são sempre um desafio durante o período delicado do abrolhamento até à floração e, inevitavelmente, esta primavera húmida originou perdas significativas. Os trabalhos na vinha foram intensivos e caros e os lavradores menos atentos perderam toda a sua produção. É impossível ignorar a realidade do Douro ter 16,890 lavradores com menos de 2 ha de vinha, mas que ainda representam 23% das vinhas da região. Muitas destas pequenas explorações sofrem de grandes carências e o seu futuro pode ser posto em causa à medida que as novas gerações procuram ocupações menos duras nas cidades.

 

O abrolhamento atrasou-se três semanas, fruto da primavera húmida e fresca e o pintor chegou com duas semanas de atraso face à média. Finalmente, um padrão de clima mais perto do habitual instalou-se em julho, com temperaturas próximas da média e pouca chuva. As vinhas que sobreviveram às agruras da passagem até à reta final mostravam-se viçosas ao longo do cálido mês de agosto, claramente beneficiadas pelos bons níveis de humidade nos solos.

 

As indispensáveis previsões climatéricas (que os nossos antepassados não tinham) apontavam tempo ótimo até outubro e tal veio a acontecer, proporcionado tempo suficiente para as uvas alcançarem maturações plenas. Sentíamos nesta altura que já merecíamos uma vindima calma e prazenteira e, embora setembro fosse mais quente do que teríamos gostado, com as médias mensais 3,4°C acima do normal, o lado positivo foi o céu constantemente limpo. Dias soalheiros avançaram as maturações mais rápido que o previsto e o arrefecimento dos mostos nos lagares foi quase sempre necessário.

 

As produções foram absurdamente baixas em 2018, com algumas das nossas vinhas a sofrer quebras de 40%, e são poucas as que não têm quebras de pelo menos 25%. Foi o segundo ano consecutivo com produções dramaticamente baixas e houve uma corrida desenfreada para obter uvas, especialmente por parte daqueles com poucas vinhas próprias. Os preços dispararam, o que é provavelmente algo de muito bom certamente para os lavradores que se debatem com dificuldades há vários anos. Esperemos que os custos mais altos das uvas corrijam os preços nas prateleiras ridiculamente baixos de alguns vinhos do Douro que prejudicam seriamente o futuro da nossa região, colocando-nos no mesmo patamar das regiões vinícolas com custos muito menores, a trabalhar vinhas planas que rendem produções elevadíssimas.

 

Devido às produções muito baixas (e em parte por causa delas) produzimos alguns excelentes vinhos do Porto e DOC Douro em 2018. A Touriga Franca parece particularmente boa, tendo beneficiado claramente do período final de maturação e apresenta cor maravilhosa e aromas expressivos que estarão em evidência nos nossos vinhos este ano.

 

É algo irónico que os muitos milhares de turistas que tão recentemente têm descoberto o charme único do Porto, bem como da extraordinária beleza do Douro, provocam uma forte fuga de mão-de-obra para o setor da hospitalidade, originado assim uma dramática falta de pessoas para trabalhar nas vinhas que os próprios turistas tanto admiram. O Douro, a mais desafiante vinha de montanha do mundo, é a última grande região vitícola do mundo a ser vindimada inteiramente à mão, em virtude da orografia incrivelmente escarpada. Esta situação não é — claramente — sustentável e se uma alternativa não for encontrada, as uvas serão deixadas nas vinhas.

 

Durante demasiado tempo, demasiadas pessoas têm olhado para o Douro como uma misteriosa e bela região, parada no tempo, onde vinhos do Porto e Douro podem ser produzidos a baixo custo, dependentes de um sistema regulatório, hoje tão distorcido, de remunerações baixas e de mão-de-obra abundante. As duas últimas vindimas mostraram que a mudança é um imperativo para podermos continuar a produzir os vinhos do Porto e Douro únicos, que nascem das nossas vinhas autóctones e dos nossos extraordinários solos de xisto.

 

Paul Symington

17.10.2018

 

 




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