
Relatório da Vindima 2026
Um Jogo de Duas Partes | Relatório de Vindima 2026
No seguimento da vindima de 2025, uma das mais pequenas e mais breves das últimas décadas no Douro, 2026 foi uma vindima de duas partes. Após o ciclo vegetativo mais precoce de que temos registo, começámos a vindimar uvas brancas a 17 de agosto, um arranque de vindima uma semana mais cedo do que em qualquer ano anterior. Durante as primeiras três a quatro semanas, tudo apontava para um ano excecional, com produções acima da média, açúcares e acidez com bom equilíbrio, e a Touriga Nacional vindimada no seu auge. Depois chegou o setembro mais quente de que há registo em Portugal desde 1931. A desidratação nas videiras e os graus Baumé mais elevados de que me lembro, transformaram um início quase perfeito numa prova de resistência de sete semanas. A produção acabou por ficar próxima da média, e os vinhos que daí resultaram têm uma concentração e uma cor extraordinárias e uma qualidade, globalmente, acima da média.
O ciclo vegetativo mais precoce
A antecipação da vindima não foi surpresa. O inverno mais chuvoso da última década, seguido de uma primavera muito quente e moderadamente chuvosa, acelerou o crescimento vegetativo, e tanto a floração como o pintor foram os mais precoces de que temos registo.
No final de junho, a precipitação acumulada era de 739 mm, face a uma média de 30 anos de 545 mm. Contudo, as temperaturas bem acima da média entre abril e junho impulsionaram um crescimento tão vigoroso que os níveis de água no solo desceram de 24% no final de maio para 15,9% um mês depois. A chuva quase nula em junho e a total ausência de precipitação em julho em nada ajudaram a inverter a tendência.
Um início promissor
Uma onda de calor de nove dias, entre 10 e 18 de agosto, foi seguida de um alívio muito bem-vindo: cinco dias de chuva generosa no final do mês (o dobro da média de agosto no Bomfim) refrescaram as videiras, baixaram as temperaturas e permitiram que as maturações avançassem.
Foi o sinal para avançarmos em pleno com o corte das castas tintas, a começar pelo Sousão, Tinta Barroca e Alicante Bouschet e, a partir da segunda semana de setembro, pela Touriga Nacional, precisamente quando atingia a maturação fenólica e quando a vindima alcançava o pico qualitativo. A nossa única preocupação era a considerável sobreposição nas maturações da Touriga Nacional e da Touriga Franca, o que exigiu um planeamento cuidadoso para vindimar ambas no seu ponto ótimo.
Uma vindima virada do avesso
Foi então que a sorte mudou. A primeira de duas ondas de calor em setembro marcou o tom de um
mês muito quente e seco, praticamente do início ao fim. As uvas começaram a desidratar nas videiras,
e o que tinha sido uma vindima serena tornou-se uma corrida contra o calor, à medida que nos
apressávamos a vindimar cada parcela de modo a mitigar as perdas. As produções começaram a cair
de forma acentuada.
A partir de meados do mês, o calor extremo durante o dia foi agravado por uma sucessão de noites tropicais, algo bastante invulgar na segunda quinzena de setembro. Alternámos entre as nossas melhores parcelas de Touriga Nacional e de Touriga Franca para limitar novas perdas. Em toda a minha carreira de enólogo, não me lembro de graus Baumé tão elevados nos lagares, por vezes acima dos 15º, e tivemos de acompanhar as fermentações muito de perto. Pelo lado positivo, os vinhos mostram uma concentração tremenda e uma cor fabulosa.
Os dados meteorológicos de outubro confirmaram a dimensão do fenómeno, com o serviço Copernicus da União Europeia a classificá-lo, ex aequo, como o setembro mais quente de que há registo na Europa Ocidental. As últimas uvas chegaram ao Bomfim a 29 de setembro e à Quinta de Roriz no dia seguinte, encerrando, ao fim de quase sete semanas, uma das nossas vindimas mais longas dos últimos anos.
Portalegre | Alentejo – Quinta da Fonte Souto
Tal como no Douro, um inverno e uma primavera muito chuvosos, com temperaturas acima da média, anteciparam o ciclo, e um verão quente e seco, com muitos dias perto dos 40°C e sucessivas noites tropicais, sujeitaram as videiras a forte pressão. Começámos a vindimar a 3 de agosto, a vindima mais precoce de sempre na Fonte Souto, e a 9 de setembro tínhamos concluído o corte dos brancos. A vindima noturna voltou a ser ferramenta essencial, tanto para as uvas como para quem as vindima.
O elevado calor de setembro dificultou bastante o corte das castas tintas: a desidratação, as paragens nas maturações e os teores de açúcar elevados reduziram consideravelmente as produções e, por vezes, tivemos de pausar a vindima durante vários dias, até terminarmos a 30 de setembro. O resultado são brancos muito frescos e aromáticos, com bom potencial de envelhecimento, e tintos de perfil maduro, aromas vivos, taninos redondos e boa acidez – mais uma prova de um terroir que proporciona qualidade mesmo nos anos mais exigentes.
Monção e Melgaço | Vinho Verde – Casa de Rodas
Na Casa de Rodas, a vindima chegou com inéditas três semanas de antecedência, a 24 de agosto, já que o ciclo adiantado e o verão quente e seco provocaram maturações muito precoces. Apesar do calor, as uvas de Alvarinho chegaram em excelente estado sanitário e com maturações equilibradas. Nesta, a nossa quarta vindima na propriedade, a produção continua modesta, uma vez que grande parte da vinha foi replantada e é ainda jovem; o nosso foco está em cuidar destas videiras para que, no futuro, deem qualidade durante muitos anos.
Duas vindimas numa só
Ao longo da última década adaptámo-nos bem às alterações climáticas, mas 2026 foi talvez a vindima em que sentimos os seus efeitos de forma mais acentuada. Uma vindima que começou com grande promessa, e que nos deu alguns vinhos muito bons no início, transformou-se, a meio, numa das mais desafiantes que já enfrentámos.
Todavia, 2026 é, no seu conjunto, um ano de qualidade acima da média. Os vinhos trazem a marca daquele setembro quente e seco — na sua concentração e cor —, e apesar dos graus Baumé excecionalmente elevados durante a segunda metade da vindima, muitos revelam uma acidez surpreendentemente boa face às elevadas concentrações de açúcares.
Charles Symington, Enólogo-Chefe
Quinta do Bomfim, 21 de outubro de 2026